Sempre que podemos temos dedicado algum espaço para falar de qualidade de vida. Já falamos algumas vezes das cidades do Bem-Viver, do Slow Movement, do Slow Food. Mais do que a procura do nirvana, estamos todos procurando uma forma melhor, mais racional, mais pró-ativa de reagir à onda do sentimento de urgência que toma conta do nosso dia-a-dia, sem razão aparente. Com prazer tenho visto isso acontecer rapidamente, deixando de ser um movimento isolado, mas se transformando em uma tendência entre as empresas com as quais convivo na minha profissão.
Foi, portanto, com prazer também, que li a matéria de Margareth Boarini, em Valor Econômico do dia 26 de outubro.
Já falamos sobre a importância estratégica do funcionário para a empresa, quando ele é tratado, por ela, como ator principal e não como coadjuvante. Pois bem, esse ator não deixa de existir quando está fora da empresa. Ele continua carregando suas qualidades e defeitos, suas necessidades humanas dentro ou fora da corporação, onde desempenha um de seus papéis mais importantes. Esse papel, seguramente, irá interferir nos demais: no papel de pai, no de mãe, no de voluntário, no de homem/mulher, no de cidadão e vice-versa.
Erra a empresa que imaginar seus funcionários como pedaços separados de um corpo. Erra a empresa que imagina contratar apenas “o cérebro”, ou “a expertise”, ou “a habilidade com as mãos” de um candidato ao trabalho. Ela contrata um corpo único, resultante das experiências e expectativas desse homem. Um corpo único que carrega para dentro e para fora da corporação, desejos, receios, sonhos, frustrações.
A visão distorcida, fragmentada das empresas sobre seus funcionários tem dificultado o seu relacionamento com eles. Essa forma torta de enxergar seus colaboradores, também tem condicionado as ações dos famosos departamentos de RH. Algumas empresas há alguns anos tinham se dado conta da nuvem escura que começava a turvar a imagem de seus RHs, e rapidamente mudaram para departamento de Talentos Humanos. Melhorou. Mas corre o risco de não adiantar, se a visão básica continua a mesma!
Felizmente, parece que o estrabismo das corporações começa a ser corrigido. A empresa está na vida de seus funcionários de forma integral, fazendo com que vida pessoal e vida profissional pertençam ao mesmo corpo, façam parte da mesma agenda, estejam comprometidas com os mesmos objetivos, trilhem estradas idênticas, que se confundem. Investir na qualidade de uma, é investir na qualidade da outra.
Como diz a matéria de Boarini, cuidar da qualidade de vida dos funcionários hoje, é mais do que livrar-se do problema do absenteísmo. É garantir um benefício que valoriza a imagem da companhia e que ajuda a aumentar a produtividade.
Ainda citando a matéria do Valor, o depoimento do professor da área de comportamento organizacional da Fundação Dom Cabral, Anderson Souza Sant´Anna, qualidade de vida “tornou-se um componente estratégico de extrema importância e que deve ser percebido como um instrumento de gestão”. E ele amplia o conceito de “qualidade de vida”. Diz que não é apenas o bem-estar das pessoas, mas “antes de tudo, a satisfação na execução do seu trabalho”.